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Diário Olímpico #4 // Lirismo

25-Jul-2016

(Final de tarde)

Quando o Sol é assim – dominante – e exibe toda a sua capacidade energética, os corpos amolecem e transpiram com paixão; o seu calor é um quebra gelo entre duas pessoas e funciona como uma ponte através da qual se iniciam intimidades: “Está demasiado calor!” Esta parece ser uma nova forma de cumprimento e, em verdade, é a expressão que nestes dias mais se tem desprendido dos meus lábios em tom de reclamação.

Entro no táxi; a testa transpirada do senhor condutor elucida-me acerca das suas reflexões e, antes que eu lhe esclarecesse o destino final, um cumprimento preenche o ar – já saturado – numa voz arrastada: “Está demasiado calor.” Abre-se uma porta, constrói-se uma ponte; uma intenção unilateral à qual não correspondo: estou com o livro de Paulo Coelho ao colo, Adultério (Impresiona-me a capacidade que os taxistas têm de continuarem uma conversa sem se certificarem que têm a atenção, ou interesse, do ouvinte – palavrões usados em jeito de vírgulas, buzinadelas com fervor)

Linda é esta mulher bem-sucedida – jornalista de renome casada com um marido rico e mãe de duas crianças adoráveis – que, apesar de todo o ambiente de amor pelo qual se encontra rodeia, sente-se infeliz.

Desde que iniciei a leitura, a curiosidade de perceber o motivo da sua infelicidade espicaça-me o entendimento; talvez porque esta mulher é uma personagem fictícia que materializa em si um futuro ambicionado. E se depois de casados tudo se torna uma monotonia – constância e aborrecimento? E se o meu sonho não passa de uma maçã do paraíso e que, por isso mesmo, representa o inferno da estagnação – do sobreviver? Esta é a minha ligação com a personagem.

Por isso, devoro letras que se agrupam em palavras; formam-se frases poéticas que refletem a condição de um estado matrimonial que, por sua vez, se reúnem em constelações de parágrafos que – no seu todo – constituem um universo de complexidade e mistério. Mergulho na narrativa; descubro, neste momento, que Linda se sente sozinha e, como homizio, traí o marido com um político – Jacob. Um acasalamento de almas perdidas… Avanço mais umas páginas, assisto a uma cena lírico-pornográfica: um envolvimento físico – carnal – entre traidora e amante, uma viagem de sensações tão intensa e real – ali mesmo, cheia de cor – que sinto uma activação biológica: coração agitado, suor (que mancha as páginas imaculadas!) e calor na face. Sinto arrepios! A minha pigmentação escura serve de álibi a todos estes sentimentos e, desta forma, não sou entregue ao senhor condutor.

26-Jul-2016

Uma manhã de descanso (novo dia) e o velho dilema apresenta-se ao espírito sem, porém, me cumprimentar; não lhe julgo a falta de modos, somos familiares: Como ocupar as horas que costumam estar religiosamente reservadas ao treino? A tarefa exige alguma criatividade mental. Inicialmente, a questão assume proporções metafísicas; por falta de brilhantismo, relaxo e volto a dormir. Acordo transpirado. O aumento da superfície de contacto entre a pele (toda) exposta e a atmosfera não evita o efeito. Abro o Facebook: num feed notícias cheio, contudo, estéril de conteúdo, encontro uma tedtalk de uma mulher com um aspeto forte e magnético:

“Feminist: a person who believes in the social, political and economic equality of sexes.”

Nos primeiros instantes, sou (logo) absorvido pelo seu timbre contagiante e apaixonado: uma reflexão profunda, deliciosa e enriquecida com vários momentos de humor – a fórmula “Story-Point-Application” brilha de esplendor. Debate-se a problemática de uma cultura global em que homens e mulheres são ensinados que o seu género está associado a um conjunto de comportamentos e obrigações. Um discurso lírico que acolho com agradado e me inflama de coragem… (Um homem não chora, um homem não cruza as pernas, um homem tem que ser forte; homem que é homem tem que provar várias carnes, de preferência femininas, caso contrário, é um ser abominável…) Abrem-se várias comportas de uma barragem que conduz, sempre, a água para o mesmo destino: feridas são expostas! Há algum tempo que decidi desprender-me destes grilhões culturais – ainda que sem chave – que apenas ferem e magoam. Sou um homem que chora. Isso faz de mim menos masculino? Categorizar facilitou a nossa sobrevivência, mas já não vivemos em árvores. O que seria se estivéssemos interessados em educar as nossas crianças a serem livres e assumirem um espírito crítico, ao invés de lhes limitar o crescimento, assassinar-lhes as expectativas e isolá-las numa cela que a única luz que recebem provém dos dogmas e estigmas de género?

“Culture doesn’t make people. People make culture.”

www.celiodias.pt

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