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Diário Olímpico #3 // Ciclo

25-Jul-2016

“Segunda-feira outra vez? Mas isto agora é todos os dias”

Moro no Centro de Alto Rendimento; um conjunto de habitações cor de rosa – enegrecido – no cimo de uma colina, protegido por vegetação e vibrações de isolamento. Apesar de todos os esforços da direção para melhorar o nosso conforto, existem melhorias necessárias (remodelações previstas, nunca completamente satisfeitas) Um abismo estende-se do letreiro – “Centro de Alto Rendimento” – até às condições a que os atletas residentes – realmente – têm acesso (palavras nobres cuja grandiosidade não resistiu ao carácter erosivo do tempo, tal como a sua implementação prática)

Acção do calor… Sufoca-me progressivamente – uma inspiração sôfrega. Agora, de olhos abertos, constato que também saqueou parte da minha limitada energia (os lençóis húmidos denunciam a sua ação noturna – imaculado homicídio!) Estendo a mão para fora dos limites da cama – estreita – e, como se à procura de um rebuçado, alcanço o telemóvel; sem nenhum esforço, estou conectado ao mundo: uma referência à essência da Segunda-feira – a madrasta à qual não se dedicam letras musicais. Interrogo-me se, tal como eu, o primeiro dia da semana está cansado de categorizações.

Inércia: resistência oferecida pelos corpos ao movimento.

(Precipitas a Humanidade para fora da zona de conforto; naturalmente, afloras o espírito de resistência nos corpos preguiçosos. Não os tentes mudar, aceita a sua natureza – um soluço, depois um choro reprimido: maquilhagem esborratada)

O meu corpo é um barómetro: medidor de performance. Se me oferecer dados favoráveis, tudo é facilitado – mergulho na tarefa sem hesitações; contrariamente, se o relatório for negativo, tenho que o enganar – manipulação e demagogia cerebrais -, um manifesto contra o lirismo: “Tu estás bem. Borá lá. Já sabes como é.”

(Um punho cerrado, um mostrar de dentes assanhado. Linguagem simples, direta – tudo prático.)

Começo a fazer o trabalho de coordenação motora: deslocações laterais, movimentos orientais – silêncio: pontualmente quebrado pelo som dos pés deslizantes. Os músculos dão os seus sinais, interpreto as suas mensagens: “El entrenamiento de hoy es para sudar” Viajo até Barcelona e oiço os conselhos do mestre; sou – todo – abraçado (num só sorriso) Nova tentativa de estrangulamento – ciclo! -; abro a porta… Atmosfera refrescante. Novo ânimo: uma vocalização familiar, de barba cerrada, agora aclarada pelo sol – fala o Professor: “Segue guerra às pegas com atenção às linhas.” (“Treino técnico-táctico” foi o que li no e-mail de ontem que fazia referência à organização dos treinos desta semana… Professor: Porque me estás sempre a enganar?)

Três saltinhos energéticos: antes de me aperceber, já tenho alguém a puxar-me o fato e a pressionar-me para levar castigo (No judo quem sai dos limites do tapete, é penalizado; o objetivo deste trabalho é melhorarmos este pormenor táctico) Acabo a primeira luta: uma experiência é sempre individual mas, numa breve troca de olhares, percebo que – hipoteticamente – a minha irmãzinha poderá estar cansada; a disposição espacial de ambos os corpos, o meu e o dela, confirma a minha suspeita – dois corpos suplicantes jazem apáticos! De porta aberta, alguns dos transeuntes – olhos curiosos! – tentam compreender a teoria complexa, no entanto, simples, do nosso desporto (sorrisos inflamados: Viva o Benfica!) O calor torna-se insuportável: deixo cair a cabeça para trás para roubar um pouco de ar ao próprio ar que, incomodado, nega o meu pedido; vejo a rede branca próxima do teto (Como se sentem os animais no jardim zoológico perante a exposição?) Apenas uma saída – estou numa jaula: sinto-me um elefante dentro do meu quarto do Jamor.. Ciclo.

Pegas, pancada, tentativas de projeções: um jogo de xadrez em movimento – um confronto de personalidades. Escorre suor sobre o olhar atento e amigo do Professor; expira-se a frustração de uma técnica mal calculada. Lutei para sair do bairro, luto para não sair de onde estou – ciclo.

Termino o treino estendido, ladeado por uma boa companhia – troco palavras com a Boa Disposição. Ciclo: Não será a Humanidade, o Universo, uma permutação cíclica de paradigmas?

www.celiodias.pt

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