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Diário Olímpico #2 // Batismo

23-Jul-2016

8:30 h: Toca o despertador; no segundo após o barulho estridente, num só movimento – impaciente -, desligo o barulho do aparelho. Respiro fundo, passo as mãos pelas pernas – húmidas e menos doridas – e faço o meu melhor para adaptar o meu corpo às formas irregulares colchão. Demasiado calor: sou embalado pelo zumbido de um mosquito; com movimentos incertos, curtos, afasto-o para um não regresso. (Realidade platónica: movimentos de fogo e paixão!)

10:30 h: Acordo de forma natural, nada como uma noite descansada para restabelecer energias. Abandono o corpo ao prazer – desfruto do estado vigilante. Começo a sentir as gotas de preocupação a escorrer-me pela testa: “Tens que estar na igreja às 11:45 h.” Pese embora a hora tardia, continuo entregue aos lençóis para decidir o melhor plano de acção; tenho um estômago para alimentar, higiene diária por cumprir, um fato para vestir (falta-me a camisa que ficou por comprar) e a distância até Almada para percorrer. Sou incapaz de decidir. Ligo à minha mãe para que ela me orquestre um plano: uma voz ansiosa (contrastante com os gritos animados dos meus sobrinhos – despreocupados!) Desligo o telemóvel: salto para a casa de banho, lavo-me com afeição ignorando o alarme alimentar; peço uma t-shirt emprestada e enfeito-me com dedicação. Apanho o táxi: a estrada é uma extensão da minha mente – preocupada; um protesto de caras revoltadas e barulho estridente.

12:00 h: Somos os primeiros a chegar à paróquia. Reconheço o cheiro a mofo picante, as paredes deterioradas testemunham os anos de utilização; papéis cujas inscrições foram comidas pela energia do sol. Entro na igreja e faço a respectiva jenolexão. Deslizo os olhos para as longas vestes da Virgem Maria que, da sua plataforma elevada, testemunha a impaciência dos jovens infantes, os telemóveis agitados, os seios descobertos – sem pudor -, e o movimento nos assentos. Renunciamos ao mal e reafirmamos a fé no Cristianismo: questiono-me se toda a plateia entende o significado das palavras que harmoniosamente debitam; faço o meu melhor para silenciar o espírito crítico e escuto as palavras da homilia. Discute-se um conjunto de ações que todos ouvem, mas uma minoria – Será que haverá alguém? – irá cumprir: “Focamo-nos nas diferenças e esquecemo-nos daquilo que nos une.” De repente, faço uma viagem por alguns dos momentos de discórdia e desentendimento… O padre faz o sinal da cruz e o Enzo recebe a água da pia batismal – olhos castanhos, doces, que estão mais curiosos do que propriamente a entender a seriedade da ocasião; os caracóis do seu cabelo alongam-se com o efeito deslizante da água. Cumprida a cerimónia, abandono a igreja para assinar o livro cujas páginas oficializam a minha responsabilidade perante o crescimento e formação do pequenote.

14:00 h: O cheiro da cachupa envolve cada molécula de ar. Chupam-se dedos, rebentam-se os balões, gritos de euforia (Ai-zá… Éueé… Zukuzu!); rabos rebolam ao ritmo do funaná e, ao mesmo tempo, seios saltam de folia – olhos masculinos dilatam-se (libido!) enquanto os seus lábios, entre-abertos, chucham minis sem parar. Não existem grandes luxos, mas temos tudo o que é preciso: bastante comida, bem confeccionada (a cada dentada devoradora, lembro-me das gramas excessivas pelas quais pagarei penitência em Vera Cruz), uma coluna que funcionava à pancada e bastante cerveja para descontrair os envergonhados. Não bebo; no entanto, alcoolizado: boas energias, música da terra, passos sincronizados, gritos tribais e pés descalços; dança a mãe que, a cada descanso, beija a face do pai (que não dança, mas o seu sorriso de satisfação deixa intuir a sua felicidade), o Enzo dorme ferrado no seu carrinho de bebé e as minis continuam a olear as articulações envelhecidas – Deus não nos deu dinheiro, mas abençoou-nos com muita alegria. A música é o ópio do povo! O salão não tem ar condicionado – ecológico! -, o suor escorre pelos rostos que, em jeito de fonte, falam crioulo; rimo-nos com todos os dentes da boca – mais houvesse! Mais kizomba, mais afro-house: certamente haverão contas para pagar – rendas, segurança social -, doenças para tratar… Mas para quê estragar a musicalidade epicurista? Vamos só: “Olha, olha, olha! Senta, senta no pula-pula!”

22:00 h: Com um fato azul – encardido de animação -, o barco embala-me até ao Cais do Sodré. Como gostaria de ter ficado a dançar até as estrelas se despedirem do céu; continuar naquela fusão de culturas em que Cabo Verde encontra Angola na Península Ibérica. Quero mais batida, ver mais rostos despreocupados e sentir a minha “drena” – sentindo-a de uma só forma: corpo. Esta é a maldição da carreira de alta competição – tudo é demasiado efémero… Nunca posso estar verdadeiramente descontraído, existe – sempre – um descanso para cumprir. Daqui a meia hora, o suor escorrido já foi lavado e as notas musicais serão uma recordação nostálgica de um serão de África. Tudo será passado: excepto, a responsabilidade que assumi perante Deus.

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