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Diário Olímpico #1 // Incapacidade

22-Jul-2016

Acordo: abro olhos, sinto o peso da gravidade; hoje não a sinto de igual maneira como em outras manhãs – intensa particularmente nas pernas. Numa alternância de estados, recuo ao treino de Quarta-feira – gemidos de dor, suor e um (quase) desespero: lembro-me dos multi-saltos infinitos, os causadores desde início de dia atribulado (Obrigado, Professor!) Não permaneço no passado muito tempo – não por uma decisão racional de viver o presente -, simplesmente oiço (e sinto!) o choro sôfrego das pernas, nas quais se concentra toda a minha experiência existencial. Sento-me na cama, olho para a janela: observo as partículas de luz que rompem a escuridão da habitação (Existirá esperança?) Arrasto-me até a casa de banho e, ao mesmo ritmo vagaroso, faço o percurso até ao refeitório e, depois, até ao local de treino…

Entro no tatami (tapete de judo) Faço os respectivos cumprimentos – rostos excessivamente risonhos! Decido isolar-me: coloco os meus phones – será que a Mãe África ouvirá o apelo? Notas graves e fortes, tambores, palavras imperceptíveis -, o corpo não se sintoniza (o ácido láctico assassinou a musicalidade celular!) Desesperado: tento estimular a adrenalina – penso em todos os meus objetivos, fecho o punho esquerdo e falo em voz alta -; sinto as correntes elétricas a percorrer o pescoço no sentido descendente: não existe conexão… Está na hora da primeira luta – concentro-me nos rituais habituais: um berro, um salto e outro berro; o primeiro é pouco intenso, o salto pouco energético e o segundo uma vocalização inexistente – coração desarmado, sem paixão. Desloco-me no tapete: um pesar de pernas, um desânimo de espírito. Tudo aos solavancos… Num movimento explosivo, bem amplo, sou projectado: caio redondo, de costas, desamparado! Toda a minha experiência existencial concentra-se, agora, no peito: quente é o orgulho ferido! Levanto-me de dentes cerrados, a raiva consome-me as entranhas – no entanto, falta-lhe intensidade, apenas uma tempestade que se agita na garganta. (Pode o tempo voltar atrás? Neste caso: talvez não seja necessário, poupem-me uma segunda projeção!) A mão balança para o lado do meu adversário; arrasto-me para fora da área de luta; lanço um olhar de mágoa ao Professor: sinto-me nu, amargo – sem vitória -; rico em suor e aprendizagem. No final do dia, tudo o que conta: a africanidade e o coração cheio de amor – familiar! Pelo menos convenço-me disso: um pesar menor.

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